sábado, 21 de julho de 2012

Enredo e entrega da sinopse da Unidos do Jacarezinho 2013

 

A Unidos do Jacarezinho definiu enredo para o carnaval 2013 na sexta-feira, Sapucay, quando será a primeira a desfilar: Jamelão. A escola dsfilará com o título: Puxador, não! Intérprete! No dia 29 de julho às 18 horas, a escola realizará a apresentação dos figurinos e a entrega da sinopse.


Fonte: Antônio Henrique, vice-presidente da agremiação

A morte da porta-bandeira, de Anibal Machado


Que adianta ao negro ficar olhando para as bandas do Mangue ou para os lados da Central?
Madureira é longe e a amada só pela madrugada entrará na praça, à frente do seu cordão.
Se o negro soubesse que luz sinistra estão destilando seus olhos e deixando escapar como as primeiras fumaças pelas frestas de uma casa onde o incêndio apenas começou!…
Todos percebem que ele está desassossegado, que uma paixão o está queimando por dentro. Mas só pelo olhar se pode ler na alma dele, porque, em tudo mais, o preto se conserva misterioso, fechado em sua própria pele, como uma caixa de ébano.
Por que não se incorporou ao seu bloco? E por que não está dançando? Há pouco não passou uma morena que o puxou pelo braço, convidando-o? Era a rapariga do momento, devia tê-la seguido… Ah, negro, não deixes a alegria morrer… É a imagem da outra que não tira do pensamento, que não lhe deixa ver mais nada. Afinal, a outra não lhe pertence ainda, pertence ao seu cordão; não devia proibi-la de sair. Pois ela já não lhe dera todas as provas? Que tenha um pouco de paciência: aquele corpo já lhe foi prometido, será dele mais tarde…
Andar na praça assim, todos desconfiam… Quanto mais agora, que estão tocando o seu samba… Está sombrio, inquieto, sem ouvir a sua música, na obsessão de que a amada pode ser de outrem, se abraçar com outro… O negro não tem razão. Os navais não são mais fortes que ele, nem os estivadores… Nem há nenhum tão alinhado. E Rosinha gosta é dele, se reserva para ele. Será medo do vestido com que ela deve sair hoje, aquele vestido em que fica maravilhosa, “rainha da cabeça aos pés”? Sua agonia vem da certeza de que é impossível que alguém possa olhar para Rosinha sem se apaixonar. E nem de longe admite que ela queira repartir o amor.
O negro fica triste.
E está até amedrontado com as ameaças da noite, com essa Praça Onze que cresce numa preamar louca.
A Praça transbordava. Dos afluentes que vinham enchê-las, eram os do Norte da cidade e os que vinham dos morros que traziam maior caudal de gente. O céu baixo absorvia as vozes dos cantos e o som em fusão de centenas de pandeiros, de cuícas gemendo e de tamborins metralhando. O negro, indiferente à alegria dos outros, estava com o coração batendo, à espera. Só depois que Rosinha chegasse, começaria o Carnaval. O grito dos clarins lhe produz um estremecimento nos músculos e um estado de nostalgia vaga, de heroísmo sem aplicação. Ó Praça Onze, ardente e tenebrosa, haverá ponto no Brasil em que, por esta noite sem fim, haja mais vida explodindo, mais movimento e tumulto humano, do que nesse aquário reboante e multicor em que as casas, as pontes, as árvores, os postes parecem tremer e dançar em conivência com as criaturas, e a convite de um Deus obscuro que convocou a todos pela voz desse clarim de fim do mundo?…
A Praça inteira está cantando, tremendo. O corpo de Rosinha não tardaria a boiar sobre ela como uma pétala. O povo dá passagem aos blocos que abrem esteiras na multidão, entre apertos e gritos.
– Isso não é assim à beça, Jerônimo! Cuidado com essa aíí! É virgem…
Rompem novos cantos. Os “Destemidos de Quintino”, os “Endiabrados de Ramos” estão desfilando. Há correria do povo para ver. Os companheiros se separam, as filhas perdem-se das mães, as crianças se extraviam. Acima das vagas humanas os estandartes palpitam como velas. E é pela ondulação dessas flâmulas que os que não podem se aproximar deduzem os movimentos das portas-estandartes.
Não se vê o corpo delas, vê-se-lhes o ritmo dos passos no pano alto. Mas era como se fossem vistas de corpo inteiro, tão fiel a imagem delas na agitação das bandeiras.
– Oh, aquela lá, que colosso!… É pena não poder vê-la;; mas é mulata, te garanto…
– Ih, como deve estar dançando aquela do outro lado!… Dezoito anos com certeza… Coxas firmes… Meio maluca…
– A que está empunhando o estandarte que vem vindo aí é que deve ser do outro mundo. Preta com certeza… Veja só como a bandeira se agita, como a bandeira samba com ela…
– Pelo frenesi, a gente conhece logo.
Dezenas de estandartes pareciam falar, transmitiam mensagens ardentes, sacudiam-se, giravam, paravam, desfalecendo, reclinavam-se para beijar, fugiam…
– Imagino como estão tremelicando os seios daquela, lá longe; aquela diaba deve estar suando… Eta gostosura de raça!
– Cala a boca, Jerônimo… Você acaba apanhando…
Os cordões se entrecruzam, baralham-se os cantos. Vem crescendo agora um baticum medonho de tambores. Um bloco formidável se anuncia. O negro amoroso interpreta os sinais semafóricos do estandarte que está entrando pelo lado da Praça da República. O negro fura a massa, coloca a sua figura enorme em situação de poder ficar bem perto. Apura o ouvido para saber se é o canto do seu cordão. A barulheira é grande. Algumas notas são do hino… Sente um arrepio. Ela virá com aquele vestido? Se entristece mais, à medida que a mulata se vem aproximando numa onda de glória, entre alas do povo.
Se quiser agora sair daquele lugar, já não poderá mais, se sente pregado ali. O gemido cavernoso de uma cuíca próxima ressoa-lhe fundo no coração. – Cuíca de mau agouro, vai roncar no inferno… Será ela, meu Deus!…
O negro está tremendo. Mas não pode ser ela. Rosinha, quando aparece, ninguém resiste, é um alvoroço, uma admiração gera… Não vê que é assim… Até o ar fica diferente. E o estandarte que vem vindo é de veludo azul, tem a imagem de São Miguel entre estrelas e as insígnias do cordão. Ainda não é bloco de Madureira.
O preto se enganou. Sente-se desoprimido. Foi melhor assim. Pensa em ir embora, desistir de tudo. No dia seguinte, na oficina do Engenho de Dentro, se sentirá leve ouvindo o batido das bigornas e o farfalhar das polias. Se os companheiros perguntarem por que não apareceu, dirá que esteve doente, que foi ao enterro de algum parente, de uma tia, por exemplo. Está mesmo disposto a voltar para casa. Que o tomem por decadente, se quiserem…
Se Rosinha desobedecer e vier à Praça, não faz mal. Está também disposto a não se importar… Nem indagará se ela fez sucesso, se alguém mais se apaixonou por ela, se o Geraldo continuou com aquelas atenções, aquele safado. Amanhã, no trabalho, recomeçará a vida, será livre novamente. Rosinha que venha procurá-lo depois. Ele é homem e é forte. O que vale no homem é a vontade.
Além disso, uma noite corre depressa. Enfiará a cabeça debaixo do travesseiro e a desgraça passará. Apelará para o sono. Já está até com vontade de dormir. Entretanto, não seria mal que caísse uma tempestade. Ao menos assim, Rosinha deixaria de vir à frente do cordão… Oh! como gostaria, como estava torcendo por um temporal que estragasse o vestido dela! Daqueles que inundam tudo, derrubam as casas, param os bondes e trazem uma desmoralização geral. No fundo está até com ódio do Carnaval…
Perto, estão tocando um samba de fazer dançar as pedras. Todos se mexem. Só quem está imóvel é ele, sob o peso de uma dor enorme. As mulatas passam rente, cheias de dengue; sorriem, dizem palavras. Hoje ele não topa. Se sente mesmo envergonhado de estar tão diferente. Nunca foi assim. No futebol, no trabalho, nas greves, nas festas, era sempre o mais animado. Foi de certo tempo para cá que uma coisa profunda e estranha começou a bulir e crescer dentro de seu peito, uma influência má que parecia nascer, que absurdo! do corpo de Rosinha, como se esta tivesse alguma culpa. Rosinha não tem culpa. Que culpa tem sua namorada? — essa é que é a verdade.
E está sofrendo, o preto. Os felizes estão se divertindo. Era preferível ser como os outros, qualquer dos outros a quem a morena porderá pertencer ainda, do que ser alguém como ele, de quem ela pode escapar. Uma rapariga como Rosinha, a felicidade de tê-la, por maior que seja, não é tão grande como o medo de perdê-la. O negro suspira e sente uma raiva surda do Geraldão, o safado. Era este, pelos seus cálculos, quem estaria mais próximo de arrebatar-lhe a noiva. O outro era o Armandinho, mas esse era direito; seu amigo, de fato, incapaz de traí-lo. Sentiu um reconhecimento inexplicável pelo Armandinho.
Suas pernas o vão levando agora sem direção. Não se acha a caminho de casa, nem se sente completamente na Praça. Algunas trechos de sambas e marchas chegam aos ouvidos, pousam-lhe na alma:
O nosso amor
Foi uma chama…
Agora é cinza,
Tudo acabado
E nada mais…
Tudo acabado, tudo tristeza, caramba!… Cabrochas que fogem, leitos vazios, desgraças. Nunca viu tanta dor de corno. Não nasceu para isso, nem tem vocação para sofrer. Os sambas o incomodam. Por que não está dançando como os outros?
O negro está hesitante. As horas caminham e bloco de Madureira é capaz de não vir mais. Os turistas ingleses contemplam o espetáculo a distância, e combinam o medo com a curiosidade. A inglesa recomenda de vez em quando: – “Não chegue muito perto, minha filha, que eles avançam…” – A mocinha loura pergunta então ao secretário da Legação se há perigo: — “Mas eles são ferozes?” — “Não, senhorita, pode aproximar-se à vontade, os negros são mansos.”  A baiana dos acarajés se ofendeu e resmunga desaforos: – “Nóis é que temo medo de vancês, seu cara de não se que diga; nóis não é bicho, é gente!…”
Passa rente aos olhos da miss um torso magnífico de ébano. Ela se perturba, fica excitada, segreda aos ouvidos do secretário, tremendo na voz: — “Eu tinha vontade dançar com um… posso?” – “You are crazy, Amy!…” exclama-lhe a velha, escandalizada. Mas os turistas agora se assustam. No fundo da Praça, uma correria e começo de pânico. Ouvem-se apitos. As portas de aço descem com fragor. As canções das Escolas de Samba prosseguem mais vivas, sinfonizando o espaço poeirento. A inglesa velha está afobada, puxa a família, entra por uma porta semicerrada.
– Mataram uma moça!
A notícia, que viera da esquina da Rua Santana, circulou depois em torno da Escolha Benjamin Constant, corria agora por todos os lados alarmando as mães.
– Mataram uma moça! — comentava-se dentro dos bares. — Mataram, sim, mataram uma moça!…
– Que maldade matarem uma moça assim, num dia de alegria! Será possível?…
– Mas mataram, sim senhora, garanto que mataram!…
– Como é o tipo dela? O senhor viu?
– Me disseram que é morena, de uns dezenove anos, por aí…
– Morena? Dezenove anos!… Ai, meu Deus! é capaz de serr a minha filha!… Diga depressa como é o tipo do rosto dela…
Outra senhora cheia de pressentimentos se aproxima do informante:
– O homem que estava com ela era preto, era? Estava de branco?… E tinha uma cicatriz? Ai! se tinha, não me diga mais nada… não me diga mais nada! Meu Deus, mataram minha filha!… Nenucha! Nenucha! Cadê Nenucha?…
As mães todas se levantam e saem a campear as filhas. O clamor de umas vai despertando as outras. Cada qual tem uma filha que pode ser a assassinada. Rompem a multidão, varam os cordões, gritam por elas. Os noivos são ferozes, os namorados prometem sempre matá-las.
A animação da Praça é atravessada agora pelo grito das mães aflitas. A mãe de Nenucha, porém, a primeira desgrenhada que se levantou, já está de volta ao seu lugar. Voltou porque cruzara com uma que se rasgava toda em imprecações: — “Laurinha, eu bem te disse que não viesses, o malvado jurou que te matava. Virgem Mãe, mataram minha filha… Eu sei… Eu nem quero ver.” A mãe de Nenucha transfere o seu desespero para a mãe de Laurinha e se acalma. Mas apareceu uma gorda a dizer por sua vez à mãe de Laurinha que a morta era outra, uma pequena de Bangu, operária de fábrica. A fera tinha sido presa.
Distante do tumulto mortífero, as outras mães que já haviam arrecadado as filhas seguram-nas bem, ao abrigo dos noivos fatais. Eram as que escaparam de morrer, as que tinham sido salvas. — “Mariazinha, que susto tua mãe passou! Não vai lá mais não, ouviu? É melhor irmos embora, teu namorado está rondando…”
Outras mães, cheias de maus presságios, partem ainda à procura das filhas.
Uma senhora que recebia corte de um português debaixo do coreto, ao ouvir a notícia, larga-se aos berros, ainda toda embrulhada em serpentinas, à procura de sua Odete. Era Odete, com certeza…
Nem tinha dúvidas… Dava encontros, punha a mão na cabeça, corria. O povo achava graça imaginando fosse alguma farsante bêbeda. Odete já devia estar numa poça de sangue, esvaindo-se. Foi o namorado! Nunca tirava os olhos dos seios dela, aquele monstro… Dizia sempre que ela havia se ser sua. E tinha uma cara malvada, o diabo do homem… Coitadinha de sua Odete… Aqueles seios!… Bem não queria, oh! que fossem tão grandes. Odete também não queria, já estava amedrontada. A mãe corria e soluçava perguntando a todos onde se achava a filha morta. Era Odete, sim, tinha quase certeza! Caminhava como uma sonâmbula. Falava sozinha, soltando lamentações. Onde é que Odete estaria caída? E não tirava do pensamento que a desgraça foi por causa dos seios da mocinha… Quem não estava vendo? Ela mesma, como mãe, reconhecia que aqueles seios chamavam demais a atenção. Tinha o pressentimento de que aquilo acabava mal. Até os passageiros dos bondes cheios se viravam para apreciá-los, quando Odete parava na calçada.
Odete, a princípio, coitada, tão inexperiente, se sentia faceira com eles… Depois, cresceram mais do que se esperava, e ela própria teve medo. Já produziam escândalo… Fora o demônio que tomara conta daquela parte do corpo de sua filha. Ultimamente, era um desespero: a pobrezinha mal podia atravessar a rua, sentia-se perseguida pelos homens. E não eram dois nem três que olhavam, não: da porta dos cafés, de dentro dos armarinhos, das sacadas, de todos os lados, todos queriam espiar, ficavam olhando… Ela passava depressa, envergonhada. Porque sempre foi muito seriazinha, a sua Odete… Que gente mal-educada… Deus nos livre dos homens. Que adiantou o soutien de arrocho?… Foi pior. “Ah, meu Deus, haverá mãe que possa dormir tranqüila vendo os seios da filha crescerem assim dessa maneira?…” Quando Odete caminhava é que eles adquiriam a sua plenitude de vida e mistério. Daí o fato de todo mundo, quando pensa em Odete, pensar logo nos seios dela, que sempre apareciam primeiro e na frente, como a proa dos navios…
A mulher tremia e soluçava. Ah! Odete não tem culpa. Foram os seios, foram… Tanto desejava levá-la para longe desses brutos.
Agora, lá vai como louca, à procura do corpo da filha.
Caminha e vê crescendo uma rosa vermelha bem em cima do seio esquerdo de sua Odete. Dá um grito, cai sem sentidos. Dois pretos carregam-na para um bar. Já outras mães vinham de volta, trazendo as respectivas filhas bem seguras nas mãos. Deram-lhe éter a cheirar, abanaram-na. Quando voltou a si, parecia ter saído de um banho de resignação. Calma. Como se tivesse se conformado com tudo o que acontecera.
Começa então a declamar a história da filha com o criminoso: conheceram-se num banho à fantasia, na praia de Ramos; ele parecia distinto a princípio, tinha emprego, dava presentes. Depois… o malvado começou a ameaçar a pobrezinha, a fazer-lhe exigências. Não queria que fosse aos bailes, que usasse blusa de malha. Dizia que ela remexia demais as cadeiras quando caminhava. Proibiu-lhe trazer flor na cabeça, conversar com os amiguinhos.
– Mas a senhora tem certeza de que foi sua filha? interrrompeu um mascarado.
– Se já estou vendo o cadáver!… Ah, meu Deus, que dor!! Não! Não! Eu quero é contar a história dela. Isso me consola…
Fez uma pausa. Recomeçou depois, mais patética:
– Ainda nem tinha dezoito anos. Uma menina… Bordava quue era um gosto. Todos apreciavam ela… Me ajudava tanto.
Um sujeito, vestido de Hailé Selassié, escutava comovido. Pouco a pouco, a pobre senhora foi percebendo que estava sendo cercada de cavalos, bois e porcos prestimosos, além de um Mefistófeles e alguns Arlequins que vieram oferecer seus serviços. Essa fauna grotesca afigurava-se-lhe como aparições do reino do horror. Eles compreenderam, tiraram as máscaras. De dentro das máscaras surgiram fisionomias cheias de compaixão, que se voltavam para ela, querendo consolá-la. Alguém disse que a vítima era outra, uma mulata de Madureira, porta-estandarte de um cordão. A mulher não acreditava. Era inútil iludi-la.
Lá fora, um coro de vozes perguntava ainda, insistentemente, por certa Maria Rosa:
Cadê Maria Rosa
Tipo acabado de mulher fatal?
E anunciava que ela tinha como sinal
Uma cicatriz,
Dois olhos muito grandes,
Uma boca e um nariz.
A mulata tinha uma rosa no pixaim da cabeça. Uma mascarado tirou a mantinha da companheira, dobrou-a, e fez um travesseiro para a morta. Mas o policial disse que não tocassem nela. Os olhos não estavam bem fechados. Pediram silêncio, como se fosse possível impor silêncio àquela Praça barulhenta. A última das mães aflitas chega atrasada, atravessa o cerco, espia bem o cadáver, solta um grito de alegria:
– Ah, eu pensava que fosse a Raimunda! Graças a Deus que não foi com minha filha! Escapaste, Raimunda!
Saiu satisfeita. Alguns malandros, de cavaquinhos nas mãos, foram se afastando, meio desajeitados. Um deles dava opinião:
– Dor eu não topo, franqueza… Sou contra o sofrimento..
Tentaram pedir silêncio novamente. Uma rapariga comentava, enxugando as lágrimas:
– Só se você visse Bentinha, quanto mais a faca enterrava, mais a mulher sorria… Morrer assim nunca se viu…
O crime do negro abriu uma clareira silenciosa no meio do povo. Ficaram todos estarrecidos de espanto vendo Rosinha fechar os olhos. O preto ajoelhado bebia-lhe mudamente o último sorriso, e inclinava a cabeça de um lado para outro como se estivesse contemplando uma criança. Uma Escola de Samba repontava no Mangue. Ainda se ouviam aclamações à turma da Mangueira. Quando o canto foi se aproximando, a mulata parecia que ia levantar-se.
E estava sorrindo como se fosse viva, como se estivesse ouvindo as palavras que o assassino agora lhe sussurra baixinho aos ouvidos.
O negro não tira os olhos da vítima. Ela parecia sorrir; os curiosos é que queriam chorar. A qualquer momento ela poderia se erguer para dançar. Nunca se viu defunto tão vivo. Estavam esperando esse milagre. Ouvia-se uma canção que parece ter falado ao criminoso:
Quem quebrou meu violão de estimação?
Foi ela…
Ainda apareceram algumas mães retardatárias rondando de longe a morta.
A morta não tinha mãe nem parentes, só tinha o próprio assassino para chorá-la. É ele quem lhe acaricia os cabelos, lhe faz uma confidência demorada, a chama pelo nome:
– Está na hora, Rosinha… Levanta, meu bem… É o “Lira do Amor” que vem chegando… Rosinha, você não me atende! Agora não é hora de dormir… Depressa, que nós estamos perdendo… O que é que foi? Você caiu? Como foi?… Fui eu? Eu?… Eu, não! Rosinha…
Ele dobra os joelhos para beijá-la. Os que não queriam se comover foram se retirando. O assassino já não sabe bem onde está. Vai sendo levado agora para um destino que lhe é indiferente. É ainda a voz da mesma canção que fala alguma coisa ao desespero:
Quem fez do meu coração seu barracão?
Foi ela…
Que ninguém o incomode agora. Larguem os seus braços. Rosinha está dormindo… Não acordem Rosinha. Não é preciso segurá-lo, que ele não está bêbedo… O céu baixou, se abriu… Esse temporal assim é bom, porque Rosinha não sai. Tenham paciência… Largar Rosinha ali, ele não larga não… Não! E esses tambores? Ui! que ventania… É guerra… ele vai se espalhar… Por que estão malhando em sua cabeça?… Na bigorna do Engenho de Dentro é assim… Se afastem que ele está lutando por ela… Ele é bamba… Não se massacra um operário dessa maneira… Estão atrapalhando o seu caminho para Rosinha… Se apitam assim, acordam ela… Ela já não está presente… Deslizando no éter… Deixem ele passar… Os outros fiquem no chão… Fiquem por aí… Ele vai tirar Rosinha da cama… Ela está dormindo, Rosinha… Fugir com ela, para o fundo do país… Abraçá-la no alto de um colina…

Sinopse da Império da Tijuca 2013 - Série Ouro


 

“Perola, negra mulher”

No início, apenas a escuridão e o vazio.
Orunmilá, meu Deus supremo, me legou o dom da criação e da transformação,
Sou Ìyámì, a grande mãe ancestral, senhora dos pássaros, Eleèye.
Matizei cor e vida, emoldurei paragens exuberantes, África.
Fiz-te berço de civilizações, morada de guerreiros.
Nesta terra me tornei Gèlédé, negra feiticeira,
Danço para a vida, para a natureza.
Despertei paixões afrontando costumes e tradições milenares,
Minha ousadia foi perfume sedutor que ao grande rei encantou.
Sou mulher forte, desafiei e fui desafiada,
Nunca me rendi, nunca temi nada.
Pelas mãos do branco fui levada a um novo mundo,
Escrava da dor e do sofrimento.
Mas resisti, tornei-me quilombola,
Meu sangue de guerreira me fez rainha audaciosa,
Santa e bela como uma rosa.
Perpetuei o clamor aos meus deuses encantados,
Ao som dos tambores todos foram louvados.
Minha beleza foi fonte de inspiração dos artistas em suas criações,
Fui estrela, negra musa, mulher inspiração.
Sou mulher brasileira em cena,
Estou no esporte, na dança e literatura,
Tenho o dom de cantar e encantar.
Hoje, sou vitoriosa, não há barreiras ou fronteiras,
Sou símbolo de fé de toda uma nação,
Mãe padroeira de todos os corações.
Sou negra, pérola mulher.

Fonte: Império da Tijuca

Sinopse da Estácio de Sá 2013 - Série Ouro


 

A ÓPERA DE UM MENINO... O TOQUE DO REALEJO REGE O SEU DESTINO!

PRESIDENTE: LEZIÁRIO NASCIMENTO
DIREÇÃO DE CARNAVAL: NELSINHO, RONI E MARCÃO
CARNAVALESCO: JACK VASCONCELOS
PESQUISADOR DE ENREDOS: MARCOS ROZA

O enredo apresentado,
Trata-se de um conto arretado.
Não fique curioso.
Espere mais um pouco.
Logo tudo será revelado.

Primeiro deixem que o som do realejo,
Traga ilusões aos seus ouvidos,
Tire-lhes os sentidos
E renovem seus desejos.

É chegada a hora!
Uma mistura sem recato.
Lá vem Estácio!
Você é nosso convidado.
Celebremos de vermelho e branco
E até de encarnado...
A festa do “Leão Coroado”.

O toque do realejo,
Rege o seu destino.
Toca como se entoasse um hino:
Sou de Pernambuco,
Sou crivado de sorte,
Sou filho da terra,
Sou Leão do Norte.
Seus pequeninos acordes
Coroam o povo nordestino.

Essa é a história
De um menino tocador
Que nasceu em Caruaru
E das ‘notas musicais’
Se tornou protetor.

Numa simbiose natural:
Notas, realejo e embocadura.
Toca a saga nordestina,
E sua cultura.

Seu pai, o dentista da região.
Sua mãe, pianista de coração.
Aventurando-se diante de tanta inspiração é:
Menino mamulengo,
Solto no baque do Maracatu,
Na arte de Vitalino,
E na Feira de Caruaru.

Mistura-se conto e magia.
Levado pelas ‘notas musicais’
Descobre a poesia...
Trilha o caminho da música,
A razão da sua alegria.

Das ondas sonoras do rádio,
Tudo se inicia.
Presta atenção na melodia
De uma simples canção.
Aprende de ouvido tocar
A “Asa Branca” do Rei do Baião.

Época, que o pós- guerra pulsa da
Alma de um país inteiro,
Seus sonhos cruzam o mar.
Em Madureira:
Vive o samba de terreiro,
Embala-se nos versos
Dos gênios partideiros,
E encanta-se com a cidade do Rio de janeiro.

Conhece um forte plantel:
Candeia, Manacéa, Waldir 59.
Até Pixinguinha, Zé Ketti e Ismael...
Nesse reduto de bambas,
Não tem pra ninguém.
Seu olhar de criança
Viaja com o samba,
A bordo do trem.

No “palco da criação”
Seu conteúdo faz a festa.
Sua brasilidade se manifesta.
Faz a hora e não espera acontecer:
Com Guerra Peixe
Partitura aprende a ler,
A teoria musical
Renova o seu saber.

Nos bastidores,
Junto a nomes consagrados como
Dolores Duran, Elizeth Cardoso,
Orlando Silva, Lamartine Babo...
É revelação.
Solos de gaita, cavaquinho e violão...
Apresenta-se na Rádio e na Televisão.

Compõe a vida
Em suas canções.
Amor, valentia, paixões...
“Chorar pra que?”
“A vida não me leva”.
“Visgo de Jaca” na vitrola brasileira.
Um “Sambinha Especial”
Com os “Meninos da Mangueira”.

Como um presente do tempo,
Segue uma carreira primorosa.
Maestro, criativo e sempre cheio de bossa
Produz o seu primeiro disco
“A Música é Nossa”.

E não para por aí!
Na voz de Gonzagão,
Tira grandes artistas da madorna.
Faz sucesso com o baião
“Ovo de Codorna”.

A “Kizomba” agradece com carinho.
O povo conhce “Sargento de Milícias”
Do parceiro e amigo Rei Martinho.

Beth Carvalho: “Coisinha do Pai”,
Fundo de Quintal: “Partido Alto”,
Dudu nobre: “Chega Mais”,
João Bosco: “Kid Cavaquinho”.
“Deixa a Vida me Levar”.
Grammy Latino, Disco de Ouro, Platina...
São tantos prêmios que não cabem no meu palavrear.
Tem “Samba pras Moças” e “Coração em Desalinho”
Encanta-nos orquestrando Zeca Pagodinho.

Abençoado pelos anjos negros,
É o Midas dos Bambas!
Com sua batuta rege artistas da MPB
Em sua “Casa do Samba”.

Em seu tempo e lugar
É erudito e popular.
Fantástico,
Surpreendente.
Testemunho de uma história permanente.
Sua obra em nossos corações
Estará sempre presente.

Com vocês Rildo Hora!

Marcos Roza, pesquisador de enredos.

Fonte: Estácio de Sá

Sinopse da Paraíso do Tuiuti 2013 - Série Ouro



 
Enredo: Ao Mestre do Riso Com Carinho: As Caras do Brasil

Quis Deus que Chico Anysio descansasse, para alegria de todo o céu e tristeza nossa! Mas este, definitivamente, não é um enredo de morte ou homenagem póstuma, mas um enredo de vida! Porque muito, muito além da despedida terrena, há uma vida inteira de dedicação ao humor, à alegria e ao entretenimento. Uma vida inteira em celebração à gaiatice e ao fazer rir com criações únicas e sem apelações gratuitas, aproveitando-se apenas da inteligência e da sensibilidade de um gênio.

Hoje, nesta merecida homenagem, vamos vencer a tristeza e fazer da alegria o nosso troféu. No lugar da dor e do lamento, vamos imaginar, neste momento, a chegada de Chico Anysio no céu!

Se aqui na Terra o nordeste vestiu luto e o Brasil todo sofreu, em contraste houve uma festa na Mansão Superior. Muitos risos e gargalhadas, uma euforia danada para a chegada do mestre do humor.

Sim, porque no céu houve imensa alegria quando correu o aviso: “Afinem os clarins e trombetas, porque está chegando ao paraíso o grande gênio do riso”. Vocês não imaginam o rebuliço que a notícia causou. Eram tantos anjos, arcanjos, querubins e, assim meio de mansinho, também foram chegando Oscarito, Grande Otelo, Zezé Macedo e Nair Belo. Eram tantas almas agradecidas, uma alegria sem igual, que o céu parecia um carnaval.

E o humorista querido, cearense reluzente, não chegou sozinho, veio com ele muita gente. Havia personagens de montão, cada um mais diferente, todos filhos legítimos do coração. Azambuja, Coalhada e Pantaleão. Painho, Salomé e Bozó. Bento carneiro, Justo Veríssimo, Haroldo, Tavares e Popó. Nem mesmo os anjos do céu conseguiam explicar como que tanta gente era filho de um homem só. Certamente os anjos não sabiam ou ainda não haviam descoberto, que apesar da saudade deixada na Terra, Chico ainda vive entre nós.

Chico vive em cada sorriso estampado no rosto do nosso povo, na irônica abordagem, no humor inteligente e na riqueza das imagens dos seus 209 personagens. Chico vive porque não se limitou a viver, mas a montar vidas diversas, raramente parecidas, geralmente às avessas. Não apenas tipos de corpo inteiro, materializados através de suas diferentes faces, mas outros tantos memoráveis criados em parcerias infindáveis com o povo brasileiro.

E vive o escritor, o compositor, o pintor, a genialidade; porque o talento é a nossa alma, é o espírito que nos faz imortal e, dessa forma, sobrevive ao corpo porque pertence à eternidade.

Hoje, querido Chico, deixe que o céu fique um pouco mais triste sem sua presença e venha matar nossas saudades! Venha para receber deste povo, que sempre foi sua inspiração, esta merecida homenagem e os legítimos aplausos.

Chico vive!
Cid Carvalho.

Agradecimentos à: Rodrigo Ferreira pela pesquisa e apoio. Elano Paula e Rouxinol do Rinaré pela inspiração.

Obs: Já li algumas vezes e ouvi outras tantas que Chico Anysio era Ateu. Mas vejam se não tenho razão: quem viveu transmitindo alegria, morrendo não estará com Deus?

Fonte: Paraído do Tuiuti

Sinopse da Alegria da Zona Sul 2013 - Série Ouro




“Quem não chora, não mama...”

Confetes coloridos caem como gotas de chuva do céu. As serpentinas, frágeis tiras de papel se enrolam entre nós dois e dessa forma ficamos cada vez mais próximos. Eu sou o seu pierrot e você a minha colombina mágica e misteriosa no seu vestido de bolas pretas. Assim, nasceu a ideia do nome do cordão de carnaval mais antigo do Rio de Janeiro e tudo isso começa lá na virada para o ano de 1918, em pleno réveillon carioca!

Jovens esportistas e alguns nem tanto, na sua maior parte associados do Clube dos Democráticos todos com o mesmo gosto pela cerveja gelada, mulher bonita e simples diversão no carnaval, capitaneados pelo senhor Álvaro de Oliveira mais conhecido como K. Veirinha ou Trinca Espinha e um senhor de nome Chico Brício, se juntam pelos bares da Galeria Cruzeiro e contra a nova ordem do chefe de polícia, (o mesmo do samba “Pelo telefone” do saudoso Donga) que queria proibir com cassação e até mesmo prisão, os grupos e cordões que perturbassem a ordem pública, criam o cordão, inicialmente com um baile “Maxixético e rebolativo!”- assim dizia no convite, na sede alugada do Clube dos Políticos, na rua do Passeio. Mais tarde o cordão saia pelas ruas da cidade, em calhambeques antigos e o povo fantasiado, cantado sem parar.

Primeiro as grandes sociedades e corsos frequentada pelas camadas mais ilustres, depois a pequena burguesia que se contentava com os ranchos e o seu lirismo romântico. E para os pobres e negros o que sobrava? A farra, os blocos e cordões que arrastavam o povo pelas ruas estreitas dessa cidade!Nos cafés o charme das madames e o galanteio dos elegantes cidadãos. Nos salões Sinhô era sucesso, assim como a polca e o samba chorado. Em terreiros, já se ouvia os bons partidos de samba de batuque e o anúncio de que vinha coisa boa por aí. Daí para ficar tudo mais gostoso, tinha o glamour dos anos 20 que arrebatava os poetas e cantadores. Começava a se sentir que a cadência do samba também combinava com o jeitinho francês, que invadia esse Rio de Janeiro de meu Deus! Juntando tudo isso e ainda mais a frenética cultura que fazia a cidade ferver e borbulhar... pronto, é igual a fórmula do sucesso: um bloco de rua!

Não qualquer bloco! Era o bloco carnavalesco Cordão da Bola Preta. E os jovens queriam apenas fundar um cordão chamado “Só se bebe água”. Mas, inspirados no vestido da tal colombina que deixou o pierrot a ver literalmente navios, mudaram de nome. E ganharam a fama e o amor de todos os foliões que se tornaram “bolapretenses”.
Assim que inaugurado, em princípio, só saía no carnaval. Depois, começou durante todos os anos muito badalo, farra e alegria nas dependências muito bem frequentadas do clube. Feijoadas concorridas, festas de batuque, bailes dançantes, shows musicais com cantores da época, concursos de todos os tipos. O Bola Preta era o point predileto da dita boa e formosa sociedade carioca, ali se vivia o melhor samba, a pura diversão e uma tal felicidade rasgada, sem fronteiras nem eiras, mas sempre mantendo os bons costumes pedidos do salão.

Os anos vão sendo contados através dos carnavais brincados. E quando chegava a festa de Momo, ahh, ai sim, o bloco vinha pra rua, com tudo que tinha direito! Havaianas com saruel coloridos e flores de lisolene se encontravam com piratas de capa e espada, mas sem olho de vidro e perna de pau. Tirolesas com suas perucas louras não necessariamente andavam com alemães, víamos muitas de braços e laços com caveirinhas enfezados. Diabinhos travavam guerras de lança perfume com românticos dominós. Os bate bolas multicoloridos metiam medo nas crianças fantasiadas de anjinhos e palhaços de fita. Já os índios, batiam martelos de plástico na cabeça das melindrosas que só queriam cantar e se divertir ao som da banda carnavalesca que tocava sem parar.

Os instrumentos de sopro, acorde e percussão se juntavam e orquestravam as mais famosas marchinhas, eram os grandes sucesso das rádios de todo o país, o Bola influenciou até as marchas que ficariam ou não famosas na MBP da época. Senhoras de leque na mão se abanavam, homens mais recatados não deixavam perder o tom. Assim ficamos sabendo que a jardineira estava triste com a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Oh abre alas que eu quero passar. Ai mamãe, dá logo à chupeta pro neném não chorar! Allah-lá-ô, Allah-lá-ô, ôô, mas que calor ô ô. Era um rio de 40 graus, ou mais. E ei você ai, me dá um dinheiro aí?

Ô nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia? O teu cabelo não nega mesmo, mas me diz, qual é o pente que te penteia, hein? Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim...Nessa cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa que até hoje é o coração do meu Brasil.

Assim o bloco ia pelas ruas do centro da cidade arrastando multidões. Homens se vestem de mulher, mulher vira valentão, a imaginação é liberada e a criatividade é premiada para quem ganhar o concurso do mais original folião. Lindas decorações compunham o cenário das ruas do centro e imediações da Cinelândia, local de partida dos desfiles do bloco, para o deslumbre visual.

Era dar um beijo apaixonado na sua amada e olhar para o céu e admirar os estandartes que enfeitavam as ruas. Era dar um gole na alegria, na ilusão, na bebida e admirar o colorido da decoração. Desciam do céu lindos adornos que emolduravam a folia, tal qual caricatura ou charge . Ou um quadro de algum pintor famoso da época.
E se fossem estandartes afro? E se “Yemanjá e seu espelho – O bairro do pelourinho na Bahia” tivessem vencido o concurso? Fernando Pamplona e Nilson Pena tiveram sua ousadia reprimida ao participarem do concurso da prefeitura. Caretice. Tolice. Vai entender a política ou pensamento de quem reprime? Afirmaram que o folclore nacional era indigno de ser decoração. O que é o Bola, afinal, senão folclore diverso da alegria etílico-momesca nacional? Mas depois isso, tudo foi revisto e eles acabaram ganhando o concurso e mais tarde Pamplona traz toda a sua inspiração para o desfile do Acadêmicos do Salgueiro.

Mas nem com toda polêmica o Bola Preta deixou de passar! Muito confete caiu ao longo desses anos, muita água de cheiro se jogou e o arlequim continua chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. Hoje, o bloco arrasta mais de dois milhões de foliões pelas ruas dessa cidade, nas manhãs de sábado de carnaval.Turistas que tentam registrar com suas máquinas ou celulares, essa transe que acontece com os foliões do bloco Cordão da Bola Preta. Crianças brincam sem parar, os mais jovens vão para se ajeitar com as “gatetes” do momento, artistas e políticos não podem deixar de frequentar e os velhos não ficam sentados, se animam, se levantam e vão sambar!
É uma catarse, uma overdose de alegria, que junta sambistas com animação e suor. E o querido Bola que surgiu de um protesto contra uma proibição, virou patrimônio histórico cultural da cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma, no seu desfile de folia, trabalhadores se libertam das regras do seu dia a dia e investem naquela paquera, acompanhados pela estúpida cerveja gelada. Os doidos camelôs tentam ganhar os últimos trocados para os momentos da festa profana. É uma procissão, diria uma comunhão de alegria, com hora para começar e terminar ao som da Banda Show e o lema de fazer e incentivar o carnaval de rua e não deixar a música popular brasileira morrer. É mais que um bloco, é um manifesto sócio cultural que une, congrega, aclama e propaga a paz o amor e a folia! Assim o Bola se torna o maior representante desse jeitão irreverente de ser carioca!

Rainhas famosas são coroadas, princesas garbosas reinam nos quatro dias de festejo e o Grêmio Recreativo Escola de Samba Alegria da Zona Sul nesses 20 anos de sua existência e resistência ao verdadeiro carnaval carioca, tem a honra de contar e homenagear em tema de enredo, os 95 anos de história do bloco carnavalesco Cordão da Bola Preta, a mais antiga instituição do carnaval carioca.

Hoje, com licença da nossa respeitada velha guarda, as nossas baianas rodopiaram com mais garra, mulatas e passistas formam o famoso triangulo com pandeiros, tão esquecido nos desfiles de escola de samba e todos se juntam para homenagear o querido Bola. E nós anônimos, porém animadíssimos foliões cariocas, vamos cantar em alto e bom som que:

“Quem não chora não mama, segura meu bem a chupeta. Lugar quente é na cama, ou então no Bola Preta. Vem pro Bola meu bem com alegria infernal. Todos são de coração, todos são de coração foliões do carnaval! Sensacional!”- (Nelson Barbosa/Vicente Paiva - 1962)Para todos que acreditam na resistência do carnaval carioca, do tema de enredo folião acima de qualquer dinheiro e para aquele que quebrou as regras dos desfiles das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro, Fernando Pamplona.


Texto e pesquisa : Eduardo Gonçalves
Agradecimentos e colaboração : Eduardo Nunes, Fábio Fabato e Vinicius Ferreira Natal.

Fonte: Alegria da Zona Sul